sexta-feira, março 27, 2009

Entre os muros da escola

Assisti ontem Entre os muros da escola, e como parece ser consenso entre aqueles que já o assistiram, saí do cinema bastante impressionada, sobretudo com a maneira que o filme lida com uma questão tão complexa como as relações estabelecidas dentro de uma sala de aula.

A escola parece mesmo ter um lugar de destaque no cinema. Os imcompreendidos (1959), Zero de Conduta ou Sementes da Violência são filmes importantes que lidam com um tema tão fértil como o universo escolar. Entretanto, nunca tinha visto uma abordagem com uma carga de sinceridade tão marcante como a deste filme francês. A justificativa para tanto talvez seja a familiriadade de um dos roteiristas com a história em questão. Entre os muros de escola foi roteirizado por Laurent Cantet, ao lado de Robin Campillo e François Bégaudeau, inspirado em um livro autobiográfico escrito por este último.


Assim como no livro, o filme acompanha, durante um ano escolar, a conturbada relação entre um professor de Francês - intepretado pelo próprio
Bégaudeau - com seus alunos, uma turma de jovens da periferia de Paris no auge da puberdade. Muito mais do que apenas cumprir o dever de ensinar os alunos a escrever e falar bem a língua, o professor é levado a adotar estratégias para lidar com as conseqüências que a passagem da infância para a adolescência impõe na vida de um jovem.

Adotando uma linguagem narrativa e estética muito próxima ao documentário e do neo-realismo, Laurent Cantet leva o espectador a acompanhar toda a insegurança e frustração daquele professor que busca conciliar respeito - fazer-se respeitado - e comprensão. Nesse sentido, a câmera está sempre a mão, não existe trilha sonora convencional, os sons são sempre aqueles que remetem ao universo escolar - conversas altas, risos e brincadeiras das crianças no pátio durante o recreio - a utilização de atores não profissionais, mas que interpretam uma versão fictícia de si mesmos. O objetivo maior aqui é fazer com que, nós, espectadores tenhamos a sensação de estar acompanhando os fatos durante o seu desenrolar. Cantet faz com que mergulhemos na história e, de alguma forma, identifiquemos com aquele universo. Afinal de contas, o que está em jogo entre aqueles paredes é algo que já vivenciamos.



Entre os muros da escola lida com questões éticas o tempo todo. Em diversos momentos, os professores daquele colégio, profissionais bastante dedicados, discutem entre si sobre qual a melhor maneira de manter o controle sobre os alunos. Há sempre discordâncias, é claro. Alguns defendem punições severas, outros preferem encarar cada aluno a partir de suas particularidades.

Não existe uma solução mais adequada. Cantet não aponta certo ou errado, apenas nos revela algo que pode parecer, em um primeiro momento, frustrante: não existe uma maneira mais acertada de educar. Lidar com seres humanos, sobretudo em uma fase tão complicada como a adolescência, pode ser algo bastante complicado. É preciso que o professor saiba compreender que o descaso, por exemplo, é algo próprio daquele momento específico. Entretanto, quando se procura entender as particularidades de cada indivíduo, a tarefa se transforma em algo muito mais humano. Muito mais do que lidar apenas com valores quantitativos como notas, é preciso se preciso preparar aqueles jovens para a vida. Com todos os obstáculos, essa me parece ser a escolha mais acertada.
E Bégaudeau nos prova isso.

Ficha Técnica
Entre os muros da escola/Entre les murs
Direção: Laurent Cantet
Duração: 128 min
França/2007

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